O poeta e sua vergonha
We live in an atmosphere of shame. We are ashamed of everything that is real about us; ashamed of ourselves, of our relatives, of our incomes, of our accents, of our opinion, of our experience, just as we are ashamed of our naked skins.George Bernard Shaw, Man and Superman (act I)
Dormiu nu. Acordou, movimentou-se ainda inconsciente por toda a extensão da cama sob medida e se sentiu leve. Leve como em uma mentira que somente a si poderia contar, leve como no recém - sonho que agora desperdiçava abrindo os olhos. O sonho tratava de uma massa humana nua e descomunal cruzando os céus da cidade com um sorriso improvável estampado em uma de suas extremidades. A massa humana era Caçarollo. Um homem e uma cedilha no nome. Duzentos e oitenta quilos que só se faziam concretos quando esticados os joelhos para a verdade toda transparecer no leve vacilo de sua flácida musculatura. Tudo tremia tão vergonhosamente que aquilo não podia durar mais que alguns trinta segundos. Então ele se sentava e esperava passar a oblíqua falta de ar. Mas dessa vez não sentou. Não. Resistiu em pé e pôs-se a observar a janela vazada de luz e notícias do dia novo.
Ainda não estava completamente acordado, sentia que esquecia algo, esquecia algo importante, talvez uma data. Então, carregado em nuvens de tentativas inúteis de se lembrar, entrou no banheiro e não viu sequer seu vira-lata destroçar uma toalha que ele havia esquecido no chão. Chegou ao espelho e o cachorro não veio atrás, estava ocupado demais com toalha e dentes. Caçarollo então se viu no espelho, e se desesperou com a luz que vinha diretamente do vidro. Esperou um segundo até a dilatação completa de sua retina e viu a face inchada, cabelo e barba rala contornando todo o rosto de olhos pequenos. Mal sabia que seu esquecimento podia lhe custar caro.
Satisfeito e ignorante, Caçarollo ainda disse baixinho para o cachorro que um poeta não precisava se barbear. Nem cortar o cabelo. E saiu lívido pela porta mais larga que todas as portas do mundo, uma porta que compreendesse toda sua imensidão e lhe proporcionasse algum conforto quando tivesse de sair ou entrar do banheiro.
Surpreendentemente Caçarollo era poeta mesmo. Poeta de livros publicados. Poeta que no caminho para a cozinha, esbarra em duas caixas de papelão com a nova edição de um de seus livros mais famosos e lembra que mais tarde teria de autografar alguns deles para o pessoal da editora. Não, não era isso que tinha de lembrar. Um poeta de verdade, era assim Caçarollo. O nome em letras vermelhas e a foto de alguma natureza morta na capa do livro. Era Caçarollo um poeta que não podia sequer distribuir alguns exemplares daquele belo trabalho editorial para alguns amigos pela óbvia razão de não ter amigos. Os amigos que tinha estavam na editora. Amigos que o pressionavam a cada ano para que escrevesse mais e mais, para que buscasse na televisão a nova musa renascentista que lhe faria escrever mais três livros. Amigos que lhe pagavam em dia e que adoravam sua poesia vendável como sorvete na praia. Sorvete na praia em dia de Sol.
Leu avisos na porta da geladeira e não se lembrou, agarrou a garrafa do refrigerante e despertou suas entranhas como fazia todos os dias. O líquido gelado e áspero tomando cada centímetro de sua garganta. Caçarollo, como disse, é um homem gordo. Um homem realmente gordo. E homens gordos não têm pescoço, logo, não têm garganta. Lógica interessante era a de Caçarollo.
Lembrou-se do sonho, sorriu no canto da boca cheia de bigodes e saliva e sentou-se nu em sua poltrona na sala. As duas pernas bem abertas para que a gordura não lhe incomodasse o sexo. Mais uma vez, agora desperto como nunca, tentou lembrar. Caçarollo, como uma vaca, ruminou ruminou e não encontrou resposta que coubesse em seu esquecimento.
Enfim, não precisou mais esforço. A casa estava uma bagunça, roupas sujas, toalhas pelo chão, pó, o cachorro que não aprendia a cagar no jornal, tudo estava ali. Lembrou-se que era o dia da doméstica, lembrou-se que ela podia chegar a qualquer momento. Lembrou-se que ela tinha a chave.
Mas era tarde demais. Em pé, à porta do apartamento, a velha senhora observava Caçarollo sentado ridiculamente na poltrona gigante, com os olhos estalados e inesperadamente morto.
O gordo morreu de vergonha, ela cansou de dizer a todos que perguntavam como havia morrido o famoso poeta Caçarollo.

