9.8.05

O poeta e sua vergonha

We live in an atmosphere of shame. We are ashamed of everything that is real about us; ashamed of ourselves, of our relatives, of our incomes, of our accents, of our opinion, of our experience, just as we are ashamed of our naked skins.

George Bernard Shaw, Man and Superman (act I)




Dormiu nu. Acordou, movimentou-se ainda inconsciente por toda a extensão da cama sob medida e se sentiu leve. Leve como em uma mentira que somente a si poderia contar, leve como no recém - sonho que agora desperdiçava abrindo os olhos. O sonho tratava de uma massa humana nua e descomunal cruzando os céus da cidade com um sorriso improvável estampado em uma de suas extremidades. A massa humana era Caçarollo. Um homem e uma cedilha no nome. Duzentos e oitenta quilos que só se faziam concretos quando esticados os joelhos para a verdade toda transparecer no leve vacilo de sua flácida musculatura. Tudo tremia tão vergonhosamente que aquilo não podia durar mais que alguns trinta segundos. Então ele se sentava e esperava passar a oblíqua falta de ar. Mas dessa vez não sentou. Não. Resistiu em pé e pôs-se a observar a janela vazada de luz e notícias do dia novo.

Ainda não estava completamente acordado, sentia que esquecia algo, esquecia algo importante, talvez uma data. Então, carregado em nuvens de tentativas inúteis de se lembrar, entrou no banheiro e não viu sequer seu vira-lata destroçar uma toalha que ele havia esquecido no chão. Chegou ao espelho e o cachorro não veio atrás, estava ocupado demais com toalha e dentes. Caçarollo então se viu no espelho, e se desesperou com a luz que vinha diretamente do vidro. Esperou um segundo até a dilatação completa de sua retina e viu a face inchada, cabelo e barba rala contornando todo o rosto de olhos pequenos. Mal sabia que seu esquecimento podia lhe custar caro.

Satisfeito e ignorante, Caçarollo ainda disse baixinho para o cachorro que um poeta não precisava se barbear. Nem cortar o cabelo. E saiu lívido pela porta mais larga que todas as portas do mundo, uma porta que compreendesse toda sua imensidão e lhe proporcionasse algum conforto quando tivesse de sair ou entrar do banheiro.

Surpreendentemente Caçarollo era poeta mesmo. Poeta de livros publicados. Poeta que no caminho para a cozinha, esbarra em duas caixas de papelão com a nova edição de um de seus livros mais famosos e lembra que mais tarde teria de autografar alguns deles para o pessoal da editora. Não, não era isso que tinha de lembrar. Um poeta de verdade, era assim Caçarollo. O nome em letras vermelhas e a foto de alguma natureza morta na capa do livro. Era Caçarollo um poeta que não podia sequer distribuir alguns exemplares daquele belo trabalho editorial para alguns amigos pela óbvia razão de não ter amigos. Os amigos que tinha estavam na editora. Amigos que o pressionavam a cada ano para que escrevesse mais e mais, para que buscasse na televisão a nova musa renascentista que lhe faria escrever mais três livros. Amigos que lhe pagavam em dia e que adoravam sua poesia vendável como sorvete na praia. Sorvete na praia em dia de Sol.

Leu avisos na porta da geladeira e não se lembrou, agarrou a garrafa do refrigerante e despertou suas entranhas como fazia todos os dias. O líquido gelado e áspero tomando cada centímetro de sua garganta. Caçarollo, como disse, é um homem gordo. Um homem realmente gordo. E homens gordos não têm pescoço, logo, não têm garganta. Lógica interessante era a de Caçarollo.

Lembrou-se do sonho, sorriu no canto da boca cheia de bigodes e saliva e sentou-se nu em sua poltrona na sala. As duas pernas bem abertas para que a gordura não lhe incomodasse o sexo. Mais uma vez, agora desperto como nunca, tentou lembrar. Caçarollo, como uma vaca, ruminou ruminou e não encontrou resposta que coubesse em seu esquecimento.

Enfim, não precisou mais esforço. A casa estava uma bagunça, roupas sujas, toalhas pelo chão, pó, o cachorro que não aprendia a cagar no jornal, tudo estava ali. Lembrou-se que era o dia da doméstica, lembrou-se que ela podia chegar a qualquer momento. Lembrou-se que ela tinha a chave.

Mas era tarde demais. Em pé, à porta do apartamento, a velha senhora observava Caçarollo sentado ridiculamente na poltrona gigante, com os olhos estalados e inesperadamente morto.

O gordo morreu de vergonha, ela cansou de dizer a todos que perguntavam como havia morrido o famoso poeta Caçarollo.

4.8.05

Noite



Marcela veio devagar, sem a parte de cima da roupa, com o tépido umbigo a me fitar na meia-luz do quarto estranho. Eu, sentado na cama, observando quieto, fumando meu último cigarro, acariciando a minha barriga em uma espécie de torpor causado por desejos impossíveis que sempre me acometiam nessas horas vermelhas. Estava ali, nu e com frio. Não tremia, nem quase tremia, mas meus mamilos, graciosos, achatados e coroados de pêlos grossos por demais, denunciavam a temperatura artificial que nos envolvia e nos dava sono. Ar condicionado me dá sono.

Lenta e sem sons no seu delicioso pé ante pé de bailarina, ela chegava cada vez mais perto de mim, brandindo uma venda preta completamente esticada nas duas mãos que, pela posição, cobria-lhe os olhos e me impedia de captar sua intenção com tudo aquilo. Com ela, era sempre assim. Eu podia dizer se ela queria vinho ou cerveja, sexo ou abraço, cinema ou casa dos pais só de ler os olhos dela. E acho que a coisa toda era meio recíproca. Ela também sempre dava um jeito de descobrir exatamente a minha vontade só de sentir meus olhos percorrerem o seu corpo ou se comportarem como mendigos inúteis e inertes.

O pano preto que ela segurava só não tapava sua boca e um pouco do seu nariz. Com os olhos pequenininhos, tentando estupidamente ver nas sombras aquele pedaço do rosto dela, notei um sorriso inexplicavelmente sarcástico, e tinha ainda o nariz ofegante. Muito ofegante.

Tudo aquilo me era estranho, confesso. Marcela não era dessas garotas que surgem com idéias mirabolantes para fugir da rotina de um casamento de três anos. Marcela era paciente e quase sempre submissa. Deitava –se na cama e me esperava pronta para o que viesse. Não era o tipo de garota que me amarraria, me vendaria e me daria a melhor noite de sexo da minha vida. No entanto, ela parecia disposta a tudo isso nessa noite. Tentei levantar da cama, buscar uma posição melhor, mas ela descobriu os próprios olhos e me olhou tão severamente que fui obrigado a voltar para a posição inicial. Senti pedrinhas de gelo leves como penas deslizarem na minha nuca. Marcela me assustava agora.

Ainda silenciosa, beijou-me e senti um gosto doce que me pareceu sangue. Cândido e assustado perguntei o que havia acontecido, por que ela tinha sangue na boca, se tinha mordido a língua ou, ainda, em uma hipótese mais improvável, se tinha perdido um dente de alguma maneira boba e insensível. Ela respondeu baixinho, com os dentes rangendo forte um contra um outro que só tinha raiva e ódio.

Meu coração batia descompassado. A respiração me era incômoda e os joelhos dela em cima do meu peito só pioravam a coisa toda.

Então, ela deslizou os dedos para debaixo do travesseiro e puxou uma algema. Eu estava perplexo, e me sentia extremamente sozinho de repente. Não conseguia me mover. Pensei que ela parecia uma aranha, quem sabe uma viúva negra, com seu irremediável veneno paralisante me congelando para sempre. Era horrível, a escuridão se tornara névoa. Marcela prendeu meus braços na cama de ferro, logo me vendou e disse algo que não entendi, pois me debatia incessantemente sob os joelhos magros e agudos no meu peito.

Quando ela saiu de cima de mim, senti o alívio dos sufocados que ressuscitam por piedade de seu algoz. Marcela não era meu algoz. Marcela era minha mulher, e só minha mulher. A mulher que eu amava, que eu desejava insanamente e pretendia ter filhos.

Subitamente ouvi a porta do apartamento bater. Ali, naquela cama, estava um homem nu e com frio, algemado e vendado. Sozinho e com sono. Não podia dormir, não agora.



1.8.05

Volta

Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas.

BERNARDO SOARES, Livro do Desassosego



Não me deixe no escuro. Não deixe também que essas lágrimas geladas tornem a escorrer por minhas fartas bochechas burguesas. O mar é muito bonito aos domingos. Você disse, eu lembro.

Sei que tem pena de mim, sei que pensa que sou uma tola, filha de dois grandes sobrenomes, frígida e incorrigível pródiga. Mas mesmo assim, espero que veja que não há auto-piedade nessa quase carta que escrevo. Não há sequer lágrima. Aliás, também não estou no escuro. Se quer mesmo saber, há aqui árvores, sol e pessoas e sons e perfumes bastantes para me fazer querer estar ao seu lado, lambendo um sorvete de chocolate, dizendo coisas sobre o sol que desmaia de cansaço no final da rua.


Não estou na praia, menti também. Estou na verdade na pracinha de frente para sua casa esperando a noite do domingo chegar e me carregar bêbada e protegida pela breve surdina das horas dezenove para entregar essa folha suja e amassada ao seu porteiro disforme. Se acha que estou gorda, como você disse aquela vez, olhe para seu porteiro. Veja como a barriga dele recai por todo o mundo, veja como ele é repulsivo e oleoso. Veja. Não somos repulsivos nem oleosos. Somos feitos para ter três, quatro, onze filhos. Veja! Somos feitos para fundir e parir em hospitais caríssimos pagos pelo meu pai. Acredite, não sou feita para estar aqui, sob um sol africano, olhando para a janela do seu quarto, para o seu andar e imaginar que está aí, de fato, com aquela mulher, a tomar bebidas e a jogar cigarros inúteis pela janela.

O que seria do mundo sem o cinema? Penso o que seria de nós sem o cinema. Eu ia ver um filme bobo. Você, um europeu. Foi quando olhei para trás e vi que você entrou logo junto de mim e deu jeito de sentar ao meu lado. Eu ri, só podia rir. Não entendi quando te vi mudar de idéia e assistir à comédia embebida na repugnante maneira americana. Quer dizer, entendi, mas preferi me fazer de desentendida. Naquela noite, quando cheguei em casa, derramei duas ou três lágrimas por você. É terrível, eu sei, mas acho-me tão por inteira apaixonada que meus devaneios se justificam.

Uma pomba, ou pombo, que seja, acabou de pousar no capô do meu carro. Será que ele não viu a fumaça do meu cigarro saindo pela janela? O que ele está pensando? Em defecar, provavelmente. É isso que os pombos fazem, eles defecam, você diria. Você é tão mais inteligente e me faz tão mais feliz.

Eu quero estar com você, e em mais um clichê, pouca coisa agora me importa. Só não me deixe pensar naquela mulher. Até sua mãe me disse que você tem outra. Por que a sua mãe me diria que você tem outra? Merda. Sim, o pombo está defecando. Merda, não me faça querer subir para tomar uma bebida com você. Não me deixe roçar minha orelha no seu pescoço e desejar todas as baboseiras que desejo. Não se esconda de mim. Atenda o telefone. Vamos. Atenda. Eu preciso falar com você. Preciso saber se ela está aí com a calcinha bege que você odeia.

Vou ligar mais uma vez, te dar outra chance de voltar para mim. Sim, mais uma. Eu cansei. Vê se atende agora. Não deixa tocar mais de três vezes. Estranho, mas lembrei daquela música que você fez no violão para mim. Aquela música daquela garota burra que não percebia que o namorado queria que ela o deixasse em paz.

Se você está aí, por que não atende o telefone? Não me faça sair do carro, trocar gentilezas com seu porteiro ridículo, esperar o elevador que nunca vem... Lembre-se, eu tenho a chave do seu apartamento. Não me faça a abrir a porta de repente e ver você enroscado no nosso sofá com aquela mulher. Ela é como o porteiro. Repulsiva. Sabe que eu a segui até aqui e vi ela tirar sujeira do nariz no farol? Vocês se merecem. Você é nojento. Um Crápula. Merda. Odeio que me façam chorar. Não me faça chorar, seu desgraçado. Eu odeio chorar, merda.